É, eu gosto de ouvir KINO, tem uma melancolia típica russa, ainda mais dessa era final da União Soviética, misturada com mensagens filosóficas da sociedade e afins. Essa música é do álbum sem título do KINO, muitas vezes referido como "Álbum preto", que também tem músicas como "Следи за собой" (Tome cuidado) e "Кончится лето" (O verão acabará). Essas músicas têm menções à morte que espreita em qualquer lugar e à falta de vontade de continuar vivo, o que é bem agravado considerando que Viktor Tsoi faleceu um dia depois do fim da gravação da versão de demonstração do álbum, num acidente entre seu carro e um ônibus.
Esta música em específico traz um ponto filosófico bem interessante sobre a vida, como um diálogo entre o eu lírico e algo etéreo que tivesse a resposta para tudo. O cuco, na cultura russa, segundo dizem, é um pássaro que, se você o ver na floresta cantando, pode perguntar a ele quanto tempo você tem de vida e contar quantos assobios ele dá para ter a resposta, em anos. Tem outra tradição russa em que você deve observar em qual galho o cuco está sentado quando canta, se você tomar este galho para si e guardar no bolso, o terá como um amuleto de boa sorte. Na composição, Tsoi quer saber tudo que pode deste pássaro tão místico, que, teoricamente, tem poder de prever o futuro, mas tem outra possível interpretação que vou falar depois.
Muito já ouvi dessa música, apreciando não só seu tom melancólico, mas também seu sentimento, como uma pessoa indagando um deus ou a sua própria sorte. Ela fica ainda mais sombria quando você lembra que ela foi composta para o último álbum que Tsoi participou enquanto em vida. Claro que isto é mais provável ser uma coincidência da vida do que realmente algo místico, mas esta interpretação, de ser uma conversa com esta entidade que rege o universo, seja ela o que for, passa um significado ainda mais forte à composição. São coincidências assim que nos apegamos por nossa empatia e sensibilidade à mortalidade. É como o último lance, em partida oficial, do grande mestre do xadrez Mikhail Tal, contra Akopian, sendo uma vitória (por desistência do oponente) em que o último lance foi Ke1, ou seja, o rei voltando para sua casa inicial. É uma história emocionante e linda, quase simbólica, parte da busca humana eterna de ressignificar a morte, uma vez que não pode evitá-la.
Sem mais delongas, à tradução:
Tradução literal:
Quantas músicas ainda estão para serem escritas?
Diga-me, cuco, cante-me tua resposta
Deveria eu viver minha vida nas ruas das cidades, ou exilado, longe de casa?
Estagnar-se como uma pedra
Ou queimar como uma estrela? Uma estrela?
Sol meu, fite em mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
Assim mesmo
Quem trilhará o caminho solitário adiante?
Os fortes e valentes o fizeram
Deixando suas cabeças empilhadas no campo, em batalhas
Poucos mantiveram a lucidez
Com mentes sóbrias e mãos firmes
Em formação, em formação
Sol meu, fite em mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
Assim mesmo
Por onde andas agora, minha liberdade?
Com quem estás agora?
Com quem te encontras na doce manhã, me conte
É bom estar contigo, mas tão ruim sem ti
Minha cabeça e meus ombros tranquilos
Sob o chicote, sob o chicote
Sol meu, fite em mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
Assim mesmo
Sol meu, fite em mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
Assim mesmo
Tradução para cantar:
Músicas que ainda não foram escritas, tem quantas?
Me diga, cuco, cante
Devia viver na cidade ou no interior?
Ficar como uma pedra
Ou queimar como uma estrela? Uma estrela?
Sol meu, olhe para mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
É isso
Quem seguirá a trilha solitária?
Dos fortes e valentes
Cabeças se empilharam no campo, em batalha
Poucos aqueles que mantiveram a lucidez
Com mentes sóbrias e firmes mãos
Em linha, em linha
Sol meu, olhe para mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
É isso
Onde estás tu agora, minha liberdade?
Com quem estás agora?
Numa doce manhã se encontrando, responda
É bom estar contigo, sim, e ruim sem ti
Minha cabeça e meus ombros tranquilos
Açoitados, açoitados
Sol meu, olhe para mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
É isso
Sol meu, olhe para mim
Minha palma tornou-se um punho
E, se houver pólvora, dai-me fogo
É isso
Letra: Viktor Tsoi
Tradução: Toinho Stark do Cangaço, 16/02/2026, 03:35-05:14
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